terça-feira, 20 de novembro de 2012

FASES ALQUÍMICAS DA MATÉRIA E DA ALMA



Este texto foi fornecido originalmente em inglês pelo Dr. Aldo Faria Dias em Curso do GEHSH, 2002



1) CALCINAÇÃO


A Calcinação é a primeira as sete maiores transformações alquímicas. Quimicamente, o processo de calcinação envolve aquecer uma substância em um cadinho, ou na chama viva, até que ela se reduza a cinzas.
No “Arcanum Experiment”, a Calcinação está representada pelo ácido sulfúrico, que os alquimistas obtém de uma substância chamada vitríolo. O ácido sulfúrico é um poderoso corrosivo que consome até o interior e reage com todos os metais, exceto o ouro.

Psicologicamente, esta é a destruição do ego e/ou nosso apego às coisas materiais.
A Calcinação é um processo natural que nos acontece a medida que somos exigidos e pelas tribulações da vida, embora ela possa ser uma deliberada rendição de nossa arrogância, adquirida através de uma variedade de disciplinas espirituais que funcionam como ignição do Fogo da introspecção e auto-avaliação.

Fisiologicamente, o fogo da calcinação pode ser experimentado como uma metabólica ou atividade aeróbica, que harmoniza o corpo, queimando os abusos de uma tolerância excessiva e produzindo mecanismos moderados, sem excessos, de agir e lutar. A Calcinação se inicia no chacra básico, no sacro, na base da espinha dorsal.

Na sociedade, a Calcinação se expressa na vida dos revolucionários, conquistadores e outros guerreiros que tentam a superação do “status quo”.

nível planetário, este é o Fogo da criação, a formação de um ambiente tolerável a partir de matéria liquefeita e chamas vulcânicas.

Correspondência de Calcinação : de acordo com a “Tábua de Esmeralda” (Hermes Trimegistro)- “ Seu Pai é o Sol” –

Elemento: Fogo; Cor: magenta, vermelho púrpura; Planeta: Saturno; Metal: chumbo


2) DISSOLUÇÂO


A Dissolução é a segunda maior operação na transformação alquímica . Quimicamente são as cinzas da Calcinação dissolvidas em água. No “Arcan Experiment” a Dissolução está representada pelo óxido de ferro ou ferrugem, que ilustra os poderes potencialmente corrosivos da água, mesmo sobre os metais mais resistentes.
O Vitríolo ao ser processado, separa-se em ácido sulfúrico e óxido ferroso, que são os dois primeiros arcanos ou ingredientes secretos. Os egípcios usavam o ferro em 1500 a.C, e usavam compostos à base de ferro em tônicos e desinfetantes.

Psicologicamente, isto representa uma posterior quebra de estruturas artificiais da psique, a partir de uma total imersão no inconsciente, no não racional, o feminino, ou nas partes rejeitadas por nossas mentes. È principalmente, um processo inconsciente em que nossa mente consciente traz à tona para fazer emergir o que está submerso, escondido. È a abertura de portões gerando uma nova energia quer a água traz. A Dissolução pode ser vivenciada como fluxo e um engajamento no processo criativo sem preconceitos, obstáculos ou estabelecimento de hierarquias.

Fisiologicamente, a Dissolução é a continuação da experiência “kundalini”, a abertura de canais de energia no corpo para recarregar e elevar cada simples célula. A Dissolução ocorre no chacra genésico ou estanho, e envolve os pulmões e baço.

Na sociedade, o processo de crescer através de uma gradual dissolução é exemplificada por estilos de vida agropecuários, monásticos.

A nível planetário, a dissolução é a “Grande Enchente” , limpeza da terra de tudo o que é inferior.

Correspondência da Dissolução: De acordo com a Tábua de Esmeralda – “Sua Mãe é a Lua”

Elemento: água; Cor : azul claro; Planeta: Júpiter; Metal : estanho


3) SEPARAÇÂO


A Separação é a terceira das operações da transformação alquímica; Quimicamente é o isolamento dos componentes da Dissolução pela filtração e então o descarte de qualquer material falso ou indigno .

No “Arcanum Experiment”, a Separação é representada pelo composto carbonato de sódio, que se separa da água no leito dos lagos. Os mais antigos depósitos se encontram no Egito.Os alquimistas às vezes referem-se a este composto como “Natron”, que significa a tendência comum de todos os sais formarem corpos sólidos ou precipitados.

Psicològicamente, este processo é a redescoberta de nossa essência e a do sonho dourado, prèviamente rejeitado pela parte racional, “masculina”, de nossas mentes. Ela é, para a maior parte, um processo consciente onde nós revemos o material escondido e decidimos o que iremos descartar, e o que será reintegrado para o refinamento de nossa personalidade.
Muito deste material sombrio são coisas das quais temos vergonha ou são coisas proibidas relativas aos pais, igrejas, escolas… A Separação faz com que haja escolhas em restrições autoinflingidas à nossa própria natureza, para que possamos brilhara através disso.

Fisiologicamente, a Separação é seguida e controlada pela respiração do corpo, já que a mesma trabalha com as forças do Espírito e Alma para permitir o nascimento de uma nova energia e renovação física.

A separação se inicia no Chacra abdominal ou Ferro, localizado ao nível do Plexo Solar.
Na sociedade, a Separação é expressa no estabelecimento de clãs, cidades e nacionalidades.

nível planetário, é representada pela formação de e de Poderosas forças do Ar, Água, Terra , Fogo.

Correspondência da Separação: der acordo coma “Tábua de Esmeralda” – “O vento corre em seu abdômen”

Elemento: Ar; Cor: laranja avermelhado; Planeta: Marte; Metal: Ferro.


4) CONJUNÇÂO

È a quarta das sete operações da alquimia.

Quimicamente é a recombinação dos elementos salvos pela Separação, formando uma nova substância. No “Arcanun Experiment”,a Conjunção é simbolizada por um nitrato composto, conhecido como nitrato de potássio ou que os alquimistas chamam Natron ou simplesmente Sal.
Natron acid(Aqua fortis) é azulado, preparado misturando nitrato de potássio com ácido sulfúrico e era utilizado para separar a prata do ouro. Os resíduos inertes precipitam do ácido durante a reação que se assemelha a uma criança nascendo.

Psicologicamente é o fortalecimento de nossas próprias vontades, a união dos lados masculino e feminino de nossa personalidade, em um novo sistema de crença ou um estado intuitivo de consciência. Os alquimistas referem-se a isso como a “Pedra Menor”, e depois que ela é atingida, o adepto está capacitado a discernir claramente o que precisa ser feito para atingir a iluminação, que é a união com a Superação. As sincronicidades sempre começarão a ocorrer, para confirmar ao alquimista que ele está no caminho correto.

Fisiologicamente, a Conjunção usa a energia sexual do corpo para a transformação pessoal. Ela ocorre ao nível do chakra cardíaco ou cobre.

nível planetário, a Conjunção ocorre quando as formas de vida primordial são criadas ou iluminadas pelo Sol.

Correspondências de Conjunção: De acordo com a “Tábua de Esmeralda”- “ A Terra é sua enfermeira” –

Elemento: terra; Cor: verde; Planeta: Vênus; Metal: Cobre.


5) FERMENTAÇÂO

É a quinta transformação alquímica. A Fermentação é um processo em dois passos, que se inicia com a Putrefação da “criança hermafrodita” que vem da Conjunção, resultando em sua morte e ressurreição em um novo nível de ser. A Fermentação começa com a introdução de uma nova vida como produto da Conjunção para expansão e garantia de sua sobrevivência.

Quimicamente, a Fermentação é o crescimento de um fermento (bactéria) em solução orgânica, tal como ocorre com a fermentação do leite para produzir iogurtes e queijo,ou a fermentação de uvas para produção do vinho. No livro “Arcanum Experiment”, o processo de Fermentação é representado por um composto chamado “Liquor Hepatis”, que é uma mistura oleosa marrom avermelhada de amônia e um composto de sulfeto de hidrogênio, o qual possui um odor de ovos podres . Os alquimistas egípcios fabricavam amônia aquecendo esterco de camelo em recipientes selados e achavam que isto resultaria em uma espécie de Mercúrio que absorveria a força vital. “Liquor Hepatis” significa licor do fígado, onde eles acreditavam que seria a sede da alma, e eles associavam o composto com a cor verde, que é a cor da bile. “Liquor Hepatis” exuda uma fragância formidável, e os alquimistas fazem dele um perfume chamado “Bálsamo da Alma”.

Psicologicamente, o processo de Fermentação se inicia com a inspiração de um poder espiritual que vem de do Alto, e que reanima, reenergiza, e ilumina o alquimista. Após o negro da Putrefação, vem o amarelo da Fermentação, que parece uma cera dourada fluindo da matéria da Alma. Seu início é anunciado por uma demonstração de cores brilhantes e visões cheias de significados chamadas de “a cauda do pavão”. A Fermentação pode ser alcançada através de várias atividades que incluem intensa oração, desejo de união mística, quebra da personalidade, terapia transpessoal, drogas psicodélicas ou profunda meditação. A Fermentação é uma vivência inspirada de algo totalmente além de nós mesmos.

Fisiologicamente a Fermentação é a erupção de uma energia viva (chi ou kundalini) no corpo, para curar e vivificar. Ela é expressa como tons vibratórios e verdades faladas, que emergem do chakra laríngeo ou mercúrio.

Em Sociedade, a experiência da Fermentação está baseada na sensibilização mística ou religiosa.

nível planetário, ela é a evolução da vida para produzir numa elevada consciência.

Correspondências da Fermentação: De acordo com a “Tabua de Esmeralda”, durante a Fermentação nós elevamos nossa consciência da escuridão do corpo animal através da meditação e evolução planetária. –“Separar a Terra do Fogo” , ela nos fala. “ a sutileza que vem do bruto, gentilmente e com grande engenhosidade”. 

Substância :enxofre; Cor: turquesa; Planeta: Vênus; Metal : Mercúrio.


6) DESTILAÇÂO

A Destilação é a sexta maior operação na transformação alquímica. Quimicamente é a fervura e condensação da solução fermentada para aumentar sua pureza, tal como ocorre na destilação do vinho para fazer o conhaque. No “Arcanum Experiment”, a Destilação está representada por um composto conhecido por “Black Pulvis Solaris”, que é feito de amônia negra com enxofre purificado. Os dois imediatamente aderem-se para formar o que os alquimistas chamam de “bezoário” (encontrado naturalmente no estomago de ruminantes, concreções duras, que na idade medieval eram utilizadas como amuletos e como antídotos de vários venenos), uma espécie de sólido sublimado que se forma nos intestinos e cérebro ( alguns atribuem tumores no cérebro a estas concreções chamadas bezoários).

Psicologicamente, a Destilação é a agitação e sublimaçâo de forças psíquicas necessárias para assegurar que nenhuma impureza vinda de um ego inflado ou um id profundamente submerso seja incorporado neste estágio ou no estágio final. A Destilação pessoal consiste de uma variedade de técnicas introspectivas que elevam o conteúdo da psiquê aonível mais elevado possível, livre de sentimentalismos e emoções. Removendo-os da identidade pessoal. A Destilação é a purificação da personalidade (Ego) não nascida(o) – tudo o que nós verdadeiramente somos e podemos ser;

Fisiológicamente, a Destilação é a elevação da força vital subindo repetidamente de regiões mais baixas no caldeirão do corpo para o cérebro (que os alquimistas orientais chamavam de Circulação da Luz), onde eventualmente ele vai solidificando a Luz cheia de força. A Destilação culmina na área chamada de Terceiro olho, na região frontal, a nível das glândulas pineal e pituitária, no chakra frontal ou de prata.

Em Sociedade, a experiência da Destilação é a realização do poder do amor elevado, como uma força viva sobre todo o planeta que busca se transformar em uma força da natureza baseada em uma visão compartilhada da Verdade.

Correspondências da Destilação: de acordo com a “Tábua da Esmeralda”, durante o processo de destilação – “ ele se eleva da Terra para o Céu e descende novamente para a Terra, entretanto combinando dentro de si ambos o que está Acima e o que está Abaixo”. 

Substância: Mercúrio; Cor: Azul profundo; Planeta: Mercúrio; Metal: Prata.


7) COAGULAÇÃO

A Coagulação é a sétima e última operação alquímica. Quimicamente, a Coagulação é a precipitação ou sublimação do Fermento Purificado da Destilação. No “Arcanum Experiment”, a Coagulação está representada por um composto chamado “Red Pulvis Solaris”, que é um pó laranja avermelhado de enxofre puro, misturado com um composto de mercúrio terapêutico, o óxido vermelho de mercúrio. O nome “Pulvis Solaris” significa “pó do Sol”, e os alquimistas acreditam que qualquer substância se torna perfeita com a adição do mesmo.

Psicologicamente, a Coagulação é primeiramente sentida como uma nova confiança que envolve todas as coisas, através de muitas experiências como o segundo corpo de luz coalescente, um veículo permanente de consciência que incorpora as mais altas inspirações e evolução da mente.
A Coagulação encarna e libera a “última matéria” da alma, o Corpo Astral, que os alquimistas também referem como a Pedra Filosofal. Usando esta pedra mágica, os alquimistas acreditam que possam existir sobre todos os níveis de realidade.

Fisiologicamente, este estágio é marcado pela liberação do Elixir no corpo que rejuvenesce dentro de um recipiente perfeito de Saúde. Este alimento celeste ou “corpo vinhático”e energiza as células sem os produtos que são produzidos. Esses processos fisiológicos em psicológicos eram o 2º corpo dentro do corpo de luz sólida que emerge do chakra coronário ou de ouro.

Em Sociedade, ela é a sabedoria da vida, em que o ser existe dentro da mesma luz que envolve a consciência e o conhecimento da Verdade.
nível planetário, a Coagulação é o retorno ao Jardim do Éden, e é um tempo de alto nível, dentro da divina mente.

Correspondência da Coagulação : de acordo com a Tábua de Esmeraldas – “Assim se obterá a Glória de todo Universo”, toda a obscuridade será eliminada por vocês  Esta é a maior força de todos os poderes, porque ele transforma e penetra nas coisas sólidas.

Substancia : sol

Cor: violeta, púrpura; Planeta :Sal CoR: Violeta; púrpura. Planeta : Sol metal : ouro

domingo, 18 de novembro de 2012

Serpentes

Por Rafael Arrais








As serpentes são nossas velhas conhecidas dos mitos de criação…


Diz-nos o Gênesis que a serpente era a mais astuta de todos os animais do Éden. Javé havia alertado ao primeiro homem e a primeira mulher, Adão e Eva, que jamais comessem do fruto proibido da árvore que estava no meio do jardim, pois que tal ato causaria a morte. Mas a astuta serpente disse a Eva: “Se o comer, certamente não morrerás. Porém, Javé sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Javé, sabendo do bem e do mal”.


Então Eva percebeu que o fruto daquela tal árvore era agradável aos olhos e desejável para o entendimento. Comeu o seu fruto, a depois ofereceu a iguaria também ao primeiro homem. E diz-nos o Gênesis que “então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus”. Eis uma excelente estratégia de Javé e da serpente…


Agora vejam esse trecho de um mito do povo Bassari da África Ocidental [1]: Unumbotte fez um ser humano e seu nome era Homem. Em seguida criou um antílope e o chamou Antílope. Também fez uma serpente chamada Serpente. E disse a eles: “A terra ainda não foi trabalhada. Vocês precisam amaciar a terra onde estão sentados”; e tendo lhes entregado sementes de todos os tipos, prosseguiu: “Plantem todas essas sementes”. Tendo obedecido às ordens de Unumbotte, perceberam que haviam criado um jardim sobre a terra, cheio de frutos os mais variados. Havia um tipo de fruto, entretanto, para o qual Unumbotte alertou que não comessem.

Um dia, porém, Serpente disse: “Nós também devemos comer esses frutos. Porque passar fome?”. Antílope então disse: “Mas não sabemos nada sobre esse fruto”. Então Homem e sua Mulher tomaram o fruto e o comeram. Unumbotte prontamente desceu do céu e perguntou: “Quem comeu o fruto?”. Homem e Mulher foram sinceros: “Fomos nós”. Unumbotte indagou-os: “Quem disse que vocês podiam comer desse fruto?”. Homem e Mulher foram um pouco mais maliciosos: “Foi Serpente quem disse”.

Pobres serpentes que levam a culpa pela suposta corrupção do homem e da mulher, a despeito de conhecimento prévio de Javé e Unumbotte acerca do que viria a ocorrer… Nem era preciso ser onisciente para saber: ofereça a possibilidade de conhecimento oculto, proibido, aos seres ávidos por conhecer, e eles arriscarão tudo por eles, tal qual Prometeu arriscou despertar a ira dos deuses (e de fato a despertou) para entregar aos homens os segredos do seu fogo. Seriam as serpentes e os titãs, seres tão astutos e conhecedores, o “grande mal” personificado, ou antes, meros atores a colaborar com o ainda mais astuto plano divino?

Diversos autores discutem sobre diversas religiões do Oriente Próximo, muitas das quais representavam a Deusa Mãe por uma serpente, e outras por uma simbologia de comunhão realizada pelo ato de comer uma fruta de uma árvore que crescesse perto do altar dedicado à Deusa. Estas deusas também representavam o conhecimento, a criatividade, a sexualidade, a reprodução, os novos ciclos naturais, e o destino [2].

De fato, não foi à toa que Eva levou a culpa do tal Pecado Original, juntamente com a serpente. Há aqui que se considerar que diversas sociedades matriarcais ancestrais foram sendo suprimidas pelo patriarcado. Por muito tempo após o advento da agricultura, as mulheres passaram a organizar a colheita, tornando-se, talvez, mais importantes para a sobrevivência da tribo do que os próprios homens, os caçadores. Tal sucesso, no entanto, fez com que o ser humano prosperasse e se espalhasse pelo mundo. Nalgum dia alguma tribo tornou-se próspera o suficiente para que despertasse uma antiga ideia brutal dos caçadores: “Porque arriscar caçar no campo selvagem, se podemos saquear os grãos e a colheita dessas tribos de ovelhas?”.

Então surgiram os lobos a assustar as ovelhas. Alguns dos lobos se ofereceram para proteger as ovelhas dos outros lobos, em troca de comida. Surgiu o primeiro exército. Os homens voltaram a dominar pela força, e a sabedoria das mulheres no lido com as colheitas e a natureza não era mais tão primordial. Com o tempo os mitos alcançaram tal história. Seguem alguns exemplos sugestivos…

Na mitologia babilônica: A morte da serpente-dragão Tiamat pelo deus Marduk, que divide seu corpo em dois, é considerada um grande exemplo de como ocorreu a mudança de poder do matriarcado ao patriarcado. Na mitologia grega: Na juventude, Apolo matou a serpente Píton, que vivia em Delfos e tomava conta do oráculo de Têmis, e tomou o oráculo para si. Depois foi punido, pois Píton era a filha de Gaia, a Mãe Terra. Ah sim, Apolo também tomou o cuidado de dividir o corpo da serpente em dois.



Finalmente, retornando a Bíblia: Diversos autores modernos analisam a história da criação do Gênesis como uma narrativa alegórica sobre a divindade Javé suplantando a Deusa Mãe, representada pela árvore da vida, e a religião hebraica suplantando este culto. Isto é demonstrado na passagem sobre a origem do pecado em que o conhecimento proibido relaciona-se a sexualidade e a reprodução, especialmente o conhecimento de que os homens participam da reprodução [3].

Eis que achamos à culpada por nosso conhecimento da sexualidade e dos mistérios naturais: a serpente-dragão, a Deus Mãe. Mas, se no Ocidente tais mitos carregaram as serpentes com características supostamente negativas, no Oriente foi algo diferente… Abaixo da Árvore da Iluminação, está o Buda sentado em posição de meditação. Quando uma grande tempestade se aproximou, uma enorme serpente levantou-se acima da caverna subterrânea e envolveu o Buda em sete espirais por sete dias, para não interromper o estado de meditação. Para os orientais, o conhecimento da natureza, não somente científico, mas sobretudo espiritual, pode levar a paz de espírito duradoura e, quem sabe, a grande iluminação interior.

Sim, há grande sofrimento no mundo, e os místicos orientais não negam isso, mas o reafirmam: nada pode ser mais prazeroso do que enfrentar esse sofrimento, e prosseguir no caminho de retorno ao Éden. A diferença é que o Éden não foi nem será – o Éden está aqui neste momento, dentro de nós, e fora de nós, espalhado sobre a terra, e os homens não o veem. Buda o viu, e esta visão o fez caminhar por milhares de quilômetros da Ásia, trazendo a “boa nova” para os desavisados, iluminando o caminho daqueles que combatiam incessantemente a natureza, sem perceber que estavam conectados a ela. Era preciso saber encarar o sofrimento face e face, e se renovar, se reinventar, à todo momento, para que os traumas e as cicatrizes fossem parte de nossa antiga história, de nossa antiga pele, e não mais do momento atual. Deste momento.

A serpente que abraça a terra e os galhos das árvores sagradas sabe: ela já provou do fruto proibido, e amargou, quem sabe, um conhecimento indesejado, o conhecimento do sofrimento e do mal; Porém, foi assim também que obteve o conhecimento da felicidade e do bem, e percebeu que o caminho para a luz da felicidade era infinito, enquanto que o sofrimento se acumulava apenas em sua pele, em sua casca. A serpente aprendeu a trocar de pele, e deixar seus antigos traumas para trás. Todo este veneno antigo não era mais necessário: fez do próprio veneno um antídoto para a vida. Serpenteia sempre renovada, pelos mesmos sulcos de terra criados por suas irmãs. A serpente sabe.

Até quando os seres de pouca visão permanecerão crendo que todo impulso natural é pecado, que a natureza deve ser subjugada, e que o sofrimento deste mundo de nada nos serve que não para esperarmos com ainda mais afinco, com as ancas ainda mais fincadas no solo do dogma, pelo suposto retorno ao antigo estado de ignorância do Éden, quando nada sabíamos e nada conhecíamos, nem éramos conscientes de nós mesmos, mas caminhávamos junto ao Pai Bondoso?

Pois saibam que este foi o grande esquema, a grande lição arquitetada por Javé e Unumbotte, com a ajuda de todas as serpentes do mundo, e com o aval da Deusa Mãe: tirar seus filhos de casa, para que sobrevivam e evoluam por si mesmos, e paguem suas próprias contas.

Está na hora de tornar-se adulto.

Então Ele percebeu, “na verdade Eu Sou essa criação, pois Eu a expeli de mim mesmo”; Dessa forma, Ele se tornou essa criação, e aquele que sabe disso torna-se, na criação, um criador (Upanishads)

***

[1] Todas as citações do povo Bassari foram retiradas de O poder do mito, a célebre entrevista de Joseph Campbell para Bill Moyers.

[2] Ver, por exemplo, este artigo de Ana Maria Mendes Moreira: A mulher, o divino e a criação.

[3] Acho proveitoso citar aqui uma das respostas de Chico Xavier no célebre Pinga-Fogo da TV Tupi (1971): “Nós temos um problema em matéria de sexualidade na humanidade, que precisamos considerar com bastante respeito recíproco: se as potências do homem na visão, na audição, na tatilidade das mãos, foram dadas ao homem para a educação e o rendimento no bem, seria então o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas? A criatura humana não é só chamada à fecundidade física, mas também à fecundidade espiritual, transmitindo aos nossos filhos os valores do espírito de que sejamos portadores.”

Crédito das imagens: [topo] Robert Recker/Corbis; [ao longo] Guido Mocafico (Serpens)